3 de janeiro de 2017

O trabalho que os americanos não querem fazer: trabalhar num navio de cruzeiro

As viagens em navio de cruzeiro continuam a ganhar popularidade, com a procura em alta, por parte de passageiros, favorecendo o constante aumento da frota. A indústria global de cruzeiros gerou uma receita de 37,1 mil milhões de USD’s em 2014 e deverá atingir os 50 mil milhões até o final de 2018, enquanto o número de passageiros transportados possa exceder os 25 milhões.
O grande aumento na procura significa muitos novos empregos como empregados de mesa, cozinheiros, barmans, governantas e recepcionistas. Mas esses empregos não serão para trabalhadores americanos. Trabalhar num navio de cruzeiro pode parecer um trabalho de sonho – no imaginário da série americana "Love Boat" – mas as longas horas de trabalho exigidas e o baixo salário oferecido obriga a que os operadores tenham de depender de tripulantes internacionais, maioritariamente filipinos.
A operadora de cruzeiros Royal Salesbbean anunciou, recentemente, que iria contratar 30.000 tripulantes filipinos durante os próximos cinco anos. Os filipinos têm poucos direitos legais. De acordo com uma convenção de arbitragem, eles são obrigados a retornar a Manila se quiserem reclamar dos seus empregadores e, portanto, tornam-se um alvo fácil da exploração.
A Columbia School of Journalism juntou-se à Univision Noticias num artigo de investigação, de quatro meses, intitulado "Vacations in No Man's Seas". Nas conclusões do artigo menciona-se que “o negócio de cruzeiros de vários biliões de dólares opera sob as leis dos paraísos fiscais internacionais, onde os navios estão oficialmente registados, o que o torna num dos mercados menos regulados dos Estados Unidos”. Apesar de a indústria usar a infra-estrutura portuária dos EUA, os recursos da Marinha dos EUA, Guarda Costeira, Segurança Interna, Alfândega e Protecção de Fronteiras, Saúde Pública dos EUA, Centros de Controlo e Protecção de Doenças e outras 20 agências dos EUA, de forma gratuita, não pagam, na prática, qualquer imposto nos EUA.
Além disso, num capítulo intitulado “Exploração em alto mar”, os jornalistas escreveram que os funcionários dos navios de cruzeiro trabalham, frequentemente, mais de 70 horas por semana, com pouco descanso e sem férias pagas. Comparam, ainda, as condições da sua alimentação à cantina de um liceu. Como todos os outros grandes negócios, a indústria de cruzeiros gastou, generosamente, na actividade de lóbi no Congresso, para poder manter o seu negócio atractivo. De 1997 a 2014, a Cruise Line International Organization e operadores individuais gastaram mais de 52 milhões de USD em actividades de lóbi no Congresso.
Perceber o aumento da procura por parte do cliente não é difícil. Os anúncios sedutores na televisão retratam os viajantes “rodeados de todos os caprichos, a serem servidos no lounge exterior da piscina, a jantarem em restaurante gourmet ou no torvelinho da pista de dança. No entanto, a exploração insensível da mão-de-obra pela indústria é repugnante. Assumindo um pagamento justo e condições de trabalho decentes, os americanos até estariam dispostos a trabalhar em navios de cruzeiro. Mas cabe ao Congresso actuar no interesse dos cruzeiristas e dos trabalhadores, algo que, até agora, demonstra pouco interesse em fazer.
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